Estamos em pleno advento, tempo de espera e de esperança. A liturgia nos convida a percorrermos um período de vigilância, mas o valor desse tempo não está na espera em si. Seu sentido real é existencial, ansiosa espera por uma criança que estar por vir, faz com que nos questionemos sobre nossa própria vida.
Quando os pais decidem ter um filho, repensam diversos aspectos da sua vida, como suas atitudes e responsabilidades. Assim, enquanto esperam a vinda do bebê, os pais se transformam e se adaptam à nova realidade. É justamente esse o sentido do advento: afastar-nos do convencional, do cotidiano e das famosas frases: “Isso sempre foi feito assim!”; “Nada vai mudar!”; “As coisas são assim e pronto!”; ou, como diz a música Modinha para Gabriela, de Dorival Caymmi: “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim...”.
Nossa vida sempre pode ser diferente: podemos curar os relacionamentos “enfermos”, perdoar as mágoas mais antigas e transformar nosso lar em um lugar onde pessoas que se amam de verdade vivem juntas. Podemos mudar as coisas externas e, sobretudo, as internas, pois da conversão interior depende a transformação de tudo aquilo que podemos tocar. Se não acreditarmos na transformação, na força do advento, em vão será nossa fé.
Acreditar e professar a fé em Jesus Cristo presume esperar sem desanimar. A espera não é passiva, mas comprometida, por isso falamos em vigilância. Temos de ser sentinelas. Não podemos ser surpreendidos pela rotina do desânimo, que nos faz deitar mais cedo, cansados da mesmice, e ignorar a beleza do céu estrelado.
O ideal seria que deitássemos para descansar somente quando estivéssemos realmente cansados, como um prêmio pelo trabalho realizado, e não que o fizéssemos para fugir de nós mesmos, dos outros e da vida. Viver sem esperança é, de certa forma, assinar um decreto de morte silenciosa.
Muitos de nós, lamentavelmente, já assinamos o atestado de óbito da nossa alma. Quando isso acontece, tudo se torna ruim, nada presta, ninguém tem valor, nós nos tornamos insuportáveis para os demais que desejam viver e têm de carregar além de suas fadigas, o peso da nossa desesperança.
O menino Jesus, que vai chegar, nos ensina que o passado já está escrito no livro de nossa vida, mas o momento seguinte – aquele que está por acontecer, hoje, amanhã ou no ano que vem – ainda temos o poder de escrever, construindo uma nova história.
Esperar sem jamais desanimar, essa é a chave de toda superação.
Pe. Luís Erlin, cmf
Artigo publicado originalmente na seção “Testemunho de Vida” da Revista Ave Maria, edição de dezembro de 2011